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OS PRIMEIROS PASSOS DA ESPERANÇA

Idoso mexe as pernas dois dias depois de receber a polilaminina, e agora diz que vai aprender a andar pela segunda vez

Quase todo mundo tem ouvido falar da mais nova esperança para quem sofre lesões na coluna, especificamente na medula: A polilaminina, desenvolvida pela doutora Tatiana Sampaio, brasileira que merece o Prêmio Nobel de Medicina. Mas poucos sabem dos "milagres" que este remédio já produziu. Vou contra um!

Há dois meses, o mundo de seu João desabou de uma altura de quase quatro metros. O corpo de 70 anos, acostumado a uma vida inteira de movimento, subitamente se imobilizou. A queda levou embora a liberdade de andar, de sentir o chão sob os pés, de cruzar uma sala sem ajuda. A paraplegia chegou como uma sentença: não mais.

Seu João, porém, não aprendeu a se conformar.

Enquanto a Justiça negava, instância após instância, o acesso ao medicamento experimental, ele esperava. Os dias se arrastavam. Sessenta dias de negativas, de recursos, de advogados, de papéis que diziam não. O tempo passava e as pernas continuavam inertes, testemunhas silenciosas de uma batalha que não era apenas física, mas burocrática, judicial, quase cruel.

A polilaminina, desenvolvida pela doutora Tatiana Sampaio, estava ali, existia, prometia. Mas prometer não é entregar. Entre a esperança e a realidade, erguia-se um muro de despachos e liminares.

Até que a Anvisa disse sim.

No dia 3 de março, o uso compassivo foi autorizado. Duas palavras que carregam o peso da urgência: compassivo, como quem reconhece que a ciência também precisa de coração. No dia seguinte, seu João recebeu a dose. E no outro, o mundo testemunhou algo que parecia impossível.

As pernas mexeram.

O vídeo correu o país. Um homem de 70 anos, deitado numa maca, cercado por fisioterapeutas, movendo as pernas como quem redescobre o próprio corpo. O rosto molhado de lágrimas, a voz embargada, a frase que virou mantra: "Eu vou sair daqui andando."

Não era apenas o movimento dos membros. Era o movimento da alma.

Há algo profundamente humano em assistir a alguém recuperar o que lhe foi tirado. Não sei se é alegria, se é alívio, se é a certeza renovada de que o corpo ainda obedece à vontade. Seu João chorou. As fisioterapeutas ao redor sorriam. Quem assiste de longe também se emociona, porque aquelas lágrimas são de todos nós.

Somos feitos de quedas e levantes. De momentos em que o chão desaparece e outros em que reaparece sob os pés. Seu João caiu de quatro metros. Mas levantou-se com a força de quem aprendeu, aos 70 anos, que andar é um verbo que se conjuga todos os dias.

A polilaminina ainda é experimental. O caminho é longo, incerto, cheio de cautelas científicas. Mas naquele dia 5 de março, num hospital de Curitiba, a ciência deixou de ser apenas números e estudos para se tornar carne, lágrima, movimento. Tornou-se a mão que puxa alguém de volta à vida que conhecia.

Enquanto seu João mexia as pernas, eu pensava na ironia do percurso. A Justiça, que deveria proteger, negou. A burocracia, que deveria organizar, atrasou. Mas a vida, teimosa, encontrou uma fresta. A Anvisa abriu a porta. A doutora Tatiana estendeu a mão. E seu João, com a força que só os que se recusam a desistir têm, fez o resto.

Há homens que passam a vida inteira andando sem nunca saber o que é ter o que andar. Seu João, depois de dois meses imóvel, redescobriu o chão. Redescobriu as próprias pernas. Redescobriu que o corpo, quando quer, quando é ajudado, quando a esperança chega na forma de uma injeção, ainda pode responder.

Ele disse que vai sair do hospital andando. Não sei se sairá. Não sei o que os próximos meses reservam. Mas sei que, naquele dia, no vídeo que emocionou o país, seu João já estava andando. Andava sobre as asas da esperança, sobre a teimosia de quem não aceita o não como resposta, sobre o amor de uma família que lutou por 60 dias contra a indiferença do mundo.

Seu João mexeu as pernas. Mas, mais do que isso, moveu a gente.

Fonte: Só Noticia Boa

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