35 anos de resistência à mesa dos invisíveis. "Se os bons se calam, os maus prevalecem"
Há 35 anos, num bairro da Zona Leste de São Paulo, alguém decidiu que fome não espera. Que a miséria não tira férias. Que os invisíveis precisam de um lugar onde possam simplesmente existir — e existir, para quem não tem nada, começa pelo direito de comer.
O Núcleo de Convivência São Martinho de Lima nasceu assim, da teimosia sagrada de quem enxerga o que a cidade insiste em não ver. O padre Julio Lancellotti esteve ali no começo, plantando sementes num chão que parecia fértil apenas para o abandono. Depois, o tempo passou, as mãos mudaram, mas o serviço continuou: 400 refeições por dia, 400 corpos que não viram estatística porque alguém se lembrou de que precisam de comida.
Quatrocentas pessoas. Por dia.
Pense nisso enquanto abre sua geladeira. Pense nisso enquanto reclama do cardápio. Pense nisso enquanto passa por debaixo de um viaduto e desvia o olhar.
Há poucos dias, o São Martinho quase morreu. Não de fome — essa, seus frequentadores conhecem bem. Mas de papelada, de burocracia, desse estranho vírus que ataca gestores públicos e os faz acreditar que serviços centenários podem ser desligados como uma lâmpada queimada.
A possibilidade de encerramento pairou sobre o Belenzinho como uma ameaça silenciosa. Quatrocentas pessoas, de repente, teriam que procurar outro prato, outra porta, outra esperança. Mas onde? A cidade que vira as costas para sua população de rua oferece poucas mesas postas.
O Ministério Público abriu inquérito. Quis saber o que se passa. Quis entender como um serviço de 35 anos pode ser colocado em xeque sem aviso, sem diálogo, sem considerar que aquelas quatrocentas pessoas não são números — são histórias, são rostos, são vidas que dependem daquele prato.
Cinco dias depois, a prefeitura recuou.
O São Martinho continua. Fará parte de um estudo técnico. Haverá planos individuais de atendimento, diagnósticos, avaliações. Tudo isso é necessário, claro. Organizar é preciso. Mas há algo que os relatórios não capturam: o cheiro do café passado ainda escuro, o barulho dos talheres contra o prato, a conversa fiada entre um gole e outro, a dignidade de sentar-se à mesa como qualquer ser humano merece.
Padre Julio, que conhece essas ruas como poucos, resumiu com a sabedoria de quem vive o chão: "A população de rua precisa ser ouvida." Não adianta fazer planos sem vínculo com a população, disse ele. Não adianta decidir de cima para baixo, em gabinetes climatizados, o destino de quem vive ao relento.
O São Martinho não é apenas um lugar que dá comida. É um lugar que dá tempo. Que permite que alguém, por alguns minutos, não seja apenas mais um corpo na calçada, mas uma pessoa à mesa. Que pode conversar, ser visto, ser chamado pelo nome.
Trinta e cinco anos. Mais de três décadas servindo, acolhendo, resistindo. Quantas gestões passaram? Quantos prefeitos, quantos secretários, quantas mudanças de rumo? O São Martinho permaneceu, como permanecem as coisas que realmente importam.
Desta vez, a ameaça foi embora. Mas ficou o alerta: a fragilidade dos serviços essenciais, a facilidade com que se cogita fechar portas que deveriam estar sempre abertas, a distância entre quem decide e quem depende da decisão.
A prefeitura diz que vai aprimorar, avaliar, organizar. Que assim seja. Mas que não se esqueça: antes dos planos individuais, antes dos diagnósticos técnicos, antes de qualquer papelada, existe gente com fome. E fome não espera.
O São Martinho de Lima segue de portas abertas. Quatrocentas refeições por dia. Quatrocentas vidas que, amanhã, poderão comer de novo. É pouco? É muito? É o mínimo.
Num mundo que fabrica cada vez mais excluídos, manter uma mesa posta por 35 anos é revolução. É dizer, todos os dias, que ninguém deve ser esquecido. Que a cidade não pode virar as costas para seus filhos mais vulneráveis. Que o pão, quando repartido, alimenta muito mais que o corpo.
Padre Julio e tantos outros anônimos sabem disso. Por isso lutaram. Por isso o São Martinho vive.
E que viva por outros 35. Enquanto houver fome, enquanto houver abandono, enquanto houver um só invisível precisando ser visto, haverá trabalho a fazer.
Amanhã tem mais quatrocentas refeições. Tem mais gente chegando. Tem mais mesa posta.
Graças a Deus.

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